Publicado em GNU/LInux, Open Source, Tecnologia

Microsoft Loves Linux

Tem um meme circulando nas redes sociais que diz que o Fidel Castro teria falado há muito tempo que os cubanos e os americanos iriam conversar o dia em que USA tivesse um presidente negro e o mundo um Papa da América Latina. Bom, Francisco e Obama já estiveram na ilha caribenha nesse ano. Aquilo que em cenários passados pode parecer impossível de se pensar, as vezes, mudando o cenário, acontece.

Quase não tem passado um mês nos últimos dois anos que não apareça na mídia especializada alguma notícia sobre o crescente interesse da Microsoft em Open Source e Linux em particular. Essa mesma companhia, que em 2001 declarou a guerra ao Linux (“Linux é um câncer”, nas palavras do CEO na época, Steve Ballmer), hoje, 15 anos depois, faz declarações de amor nas apresentações do novo CEO Satya Nadella.

Que notícias são essas (entre outras)?

A última notícia, e que tem motivado essa postagem, é a colaboração entre a Canonical (empresa responsável da distribuição Ubuntu Linux) e a gigante de Redmond para levar o terminal Linux ao Windows 10 de forma nativa. Se alguém tivesse me falado disso há uns poucos anos, eu teria achado tão fantasioso quanto o Papa ser argentino.

O que a Microsoft está amando do Linux?

A postagem começa citando as supostas palavras do líder cubano Fidel, e isso é pertinente desde que a Microsoft chegou, no paroxismo da sua incompreensão do fenômeno do softwear livre, a acusar os usuários de Linux de “bando de ladrões comunistas”. Como que esse ódio “irracional”, nos termos de uma Guerra Fria há tempos sepultada nos livros de história, se transformou em um belo conto de amor?

Bom, nas mãos do tosco Steve Ballmer, a Microsoft teve dificuldades para entender, não apenas o fenômeno do software livre, mas também várias outras tendencias acontecendo. O monopólio quase absoluto no desktop, com Windows e o pacote Office, era tão sólido (e de fato ainda é) que nada ameaçador parecia haver no horizonte e a grana não parava de entrar nas contas dos acionistas. A computação nas nuvens, a Internet das Coisas (IoT), os sistemas embarcados, a Inteligência Artificial, a robótica, a realidade virtual, o Big Data, os veículos autônomos e, principalmente, o mobile (smartphones, tablets, wearables), eram assuntos secundários para a companhia de Redmond. Outros gigantes da tecnologia como a Google, a Apple, Amazon, Oracle, IBM, Intel, Tesla etc, começaram a investir pesado nessas áreas muitos anos antes da Microsoft acordar do sonho doce do monopólio. Hoje, o mercado principal da Microsoft, o mercado da PC, vai perdendo peso específico e seu futuro resulta incerto. Agora, eles precisam alcançar seus oponentes nessa carreira.

Muitas das novas tecnologias pipocando no mercado são baseadas em projetos Open Source. Google desenvolveu dois sistemas operacionais muito populares baseados no Kernel Linux: Android e Chrome OS. O próprio navegador Chrome, que desbancou o monopólio do Internet Explorer, é baseado no projeto de software livre Chromium. O modelo de desenvolvimento de software aberto tem se demonstrado sólido, capaz de gerar código de alta qualidade e, contrario aos delírios macartistas da Microsoft, capaz de gerar também modelos de negócios válidos para a industria, além de projetos com objetivos comunitários e sem ânimo de lucro.

O que a Microsoft ama do Linux é a sua comunidade

O Ballmer, em uma daquelas apresentações patéticas típicas dele, ficou gritando sem graça pra plateia: “desenvolvedores, desenvolvedores, desenvolvedores!”. Ninguém parecia entender muito bem o intuito da encenação, desde que os desenvolvedores para a empresa não eram mais do que nomes na folha de pagamento. Hoje, resulta evidente que existe uma massa de talento enorme, colaborando em redes e projetos, desde lobos solitários até grandes empresas e comunidades, criando o futuro de forma aberta. Todo aquele que não consiga entender isso, vai precisar reinventar a roda uma e mil vezes, e vai chegar tarde a todas as festas. E o Satya Nadella parece entender isso muito bem.

Isso é bom para a comunidade Linux e Open Source? Só o tempo vai falar. Mas, eu acho que sim. Ainda que o Linux e o software livre terem se desenvolvido em boa medida numa dialética “anti-Microsoft”, pelo fato dela ter sido durante anos a mais ferrenha defensora do software privativo, do monopólio tecnológico e das práticas desleais; a soma de um ator emblemático como a Microsoft ao universo livre (ainda que com ressalvas), derruba muros, abre portas e afirma a importância e a vigência do software livre.

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