Publicado em Cultura, Tecnologia, Ubatuba

O Enigma da Maçã

Concorda comigo? Se amanhã o seu bichinho de estimação, de alguma forma, qualquer que seja, manifestar pra você que ele sabe que à oitava potência de dois é duzentos e cinquenta e seis, você tomaria um susto, não teria a menor dúvida de que o bichinho é inteligente e, provavelmente, sairia correndo a postar o fenômeno no Youtube? Mas, não é isso precisamente o que faz o mais simples e barato calculadorzinho chinês produzido em massa e vendido como bugiganga?

O bichinho que sabe calcular é inteligente? E o calculador? E o computador? São eles inteligentes? A inteligência pode emanar de uma mistura de cobre, silício e elétrons? Podem as máquinas pensar? Definir o que é e não é inteligente, é um negócio complexo. 

A Solidão

Alguma vez, o famoso cientista e divulgador Carl Sagan dize que, tanto a hipótese de que a raça humana seja a única inteligente nesse Universo, como a oposta de que poderiam existir inúmeras raças com o dito atributo, são ideias igualmente inquietantes. Estamos sozinhos nessa imensidão? Ou somos apenas uma das infinitas formas que a consciência pode assumir num Universo superlotado de inteligências? E como elas seriam? Do que elas seriam capazes? Por enquanto, essas são perguntas sem resposta. O fato é que a nossa experiência, até agora, tem a ver mais com a solidão. Tal vez por isso a nossa persistente obsessão por definir, criar ou descobrir “uma outra” inteligência.

Enigma

O britânico Alan Turing (1912-1954) foi um dos pioneiros no campo do que hoje nós chamamos AI (Artificial Intelligence). Matemático brilhante, teve participação decisiva na criação de um dos primeiros computadores da história e na quebra dos códigos secretos dos nazistas gerados pela máquina “Enigma” durante a Segunda Guerra Mundial. Formulou também o chamado “Teste de Turing”. Na disputa científica e filosófica sobre se seria possível as máquinas pensarem, Turing defendeu o ponto de vista de que, se essa tal máquina pudesse enganar o seu interlocutor e fazer ele pensar que estava conversando com um ser humano, então, essa máquina devia ser considerada inteligente.

A Maçã

Alan Turing, aparentemente, suicidou-se engolindo uma maçã impregnada de veneno. A maçã, símbolo recorrente na nossa cultura, já tem significado conhecimento, imortalidade, tentação e pecado na tradição judaico-cristã. A maçã de Newton faz parte do mito originário da maior quebra de paradigma que alumbrou a modernidade. E a cultura popular também estendeu sua simbologia, entre outros: os Irmãos Grimm e “A Branca de Neve” no século XIX; René Magritte e o seu “The Son of Man”, ou “As Maçãs Douradas do Sol” de Ray Bradbury no XX; e já nesse novo milênio, da mão da Apple e o seu profeta Steve Jobs, ganha apelos de atitude “cool”, moderna e descolada; status, inovação e design associados a produtos de consumo tecnológico “inteligentes”.

Cristina-Prochaska-15

Os Artistas

A peça de teatro da Officina Artaud (Ubatuba), “A Maçã”, indaga essas e outras muitas questões. Bruno Machado, João Paulo Saragossa e Vittorio Colaccio (Itália), colocam em cena o drama do Alan Turing, do ser humano, do cientista; mas também o de todos nós como sujeitos da história humana, seus feitos e desfeitos. Um grande esforço de artistas independentes procurando oferecer à comunidade ubatubense e a região um trabalho de alta qualidade técnica, estética e argumental. Vale muito a pena assistir. Apoie os artistas locais, e assim estará apoiando o desenvolvimento da sua comunidade e o seu próprio.

Conheça mais sobre a peça, o grupo e datas de apresentação no site oficial: http://officinaartaud.org/maca/

Foto: Cristina Prochaska

 

 

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